"A queda da empáfia" ou "porque o futebol é um esporte coletivo"
Foi um jogo de contrastes gritantes. De um lado, a toda poderosa seleção que defendia o título e tinha os reconhecidos unanimemente como os melhores atletas do mundo da bola. De outro um time ressabiado com as críticas, que sentia o peso da responsabilidade de suceder uma geração vencedora que já entrava, ela própria, em declínio.
E os criticados cresceram na adversidade. Os humanos são assim, e não há esporte tão tremendamente humano como o futebol. Não há esporte tão cruel nas derrotas. Tão emotivo quanto como se celebra um gol no último minuto. E o futebol, mais que qualquer outro, é um esporte coletivo.
Minhas lembranças em copas do mundo remontam a 1986 quando, aos seis anos, assisti à derrota brasileira ante a França de Platini nos pênaltis. Eu, claro, chorei. Lembro, porém de uns golaços de fora da área e a beleza do futebol de um tal “Diego Armando Maradona”. Durante a copa de 1990 ainda não entendia muito do esporte bretão, mas vi uma confusa seleção brasileira em campo. Maradona ainda desequilibrava. A copa italiana, no entanto, foi pobre de futebol.
Em 1994, adolescente, assisti e torci muito pelo tetracampeonato brasileiro que veio de forma dramática, difícil, penosa, chorada onde o time não encantava, mas era muito forte no setor defensivo e contava com os lampejos de genialidade de um baixinho mal-encarado lá na frente.
Em 1998, já entendendo um pouco mais do ludopédio vi um time sem alma perder para uma França (de novo!) regida por um maestro que, de tão elegante ao jogar, lembrava os clássicos craques do passado. Triste derrota. Venceu o melhor.
Em 2002, um time muito limitado que tinha dois trunfos: Rivaldo em grande fase que foi indiscutivelmente o melhor jogador da copa (embora o carequinha tenha sido artilheiro e tenha ganho as loas da torcida) e um técnico que, embora não afeito às tradições ofensivas brasileiras, injetava um ânimo, criava um clima, enfim, motivava a equipe a ser uma só, unida, como os mosqueteiros em busca do objetivo que, enfim e felizmente, veio.
Chego então a 2006. Brasil superfavorito. Brasil com os melhores do mundo. Brasil de salto alto. Brasil estrelado, midiático, supertelevisionado, destrinchado, exposto. Brasil fragilizado. Brasil sem senso de “equipe”. Brasil travado, amarrado a um esquema deficiente, inefetivo. Brasil derrotado.
De novo pela França!!! De novo pelo maestro. Oito anos depois, os anos já pesam. A experiência, transformada em aula de futebol, é muito maior. Ele desfilou. Encantou. Seu estilo clássico e elegante de jogar foi sublime. Se a velocidade já não é a mesma de outrora, o toque refinado, o drible fino e a classe predominam. Uma exibição de gala do maestro Zinedine Zidane coroada com um sem-pulo do bailarino Henry. Festa francesa. Decepção brasileira.
Humildade não existiu entre os “campeões do mundo”. A empáfia, a soberba, a postura extremamente arrogante dos galácticos brasileiros caiu doce como um vinho goela abaixo dos franceses. O maestro não degustou sozinho. Foi acompanhado do, no mínimo, esplêndido Vieira. Volante à altura da tradição de Falcão e Beckbenbauer que a tudo assistia na tribuna de honra.
Espetáculo de Makélélé, incansável na defesa e marcação dos “cansáveis” Ronaldos. Thuram, brilhante na cobertura do praticamente inexistente ataque brasileiro. É,... existem jogadores excelentes fora da América do Sul. Ontem alguns deles comprovaram que devemos, sim, sermos humildes, exultarmos os grandes, assistirmos à beleza clássica do maestro e termos menos empáfia, mais trabalho, menos arrogância, mais conjunto. Menos soberba, mais equilíbrio. Afinal de contas, o futebol é um esporte coletivo.