A primeira vez que tive contato com um livro de Bloom eu tinha uns 13 anos. É óbvio que meus limites intelectuais à época não puderam perceber o quão intenso era o pensamento deste crítico literário. E já tinha lido grande parte das obras mais conhecidas de Shakespeare, Hamlet incluído.
O tempo passou, minhas leituras aumentaram em número e qualidade, meu pensamento acadêmico e cultural foi aprofundando-se e hoje, ao ler esta entrevista chego a conclusão que tive quando li Bloom pela primeira vez. Concordo em grande parte com o homem e acho até que ele lê meus pensamentos. (que absurdo!). Quem seleciona um elenco esplêndido como Homero, Platão, Montaigne, Cervantes, Dante e Shakespeare e se dedica a estudá-los, demonstrar a força da influência dos mesmos para toda a cultura ocidental não pode estar errado.
Vejamos, Homero praticamente inventou, para nós, a poesia. A despeito da impenetrabilidade da língua grega, of course. Platão era do tempo que os filósofos faziam-se entender pelo estilo refinado e o toque artístico dos textos. Para os intelectuais bobocas é uma grande ironia que seus textos ditos “acadêmicos”, aqueles produzidos para os “entendidos” e em tom mais hermético perderam-se com o tempo. Restaram apenas suas obras para o “povo”, ou para os “não-entendidos”. O tom professoral das obras é ao mesmo tempo de um prazer estético imenso e inteligível.
Montaigne inventou o ensaio e a liberdade que este proporciona a seu autor. Era um sábio maiúsculo e já comentei sobre ele aqui. Cervantes, caramba! Como posso acrescentar algo sobre Cervantes? Tudo o que foi dito sobre ele ainda não o definiu por completo. E Dante fez, simplesmente, a maior poesia de todos os tempos. É difícil lê-la atualmente, admito. Mas, seus contemporâneos não erraram ao rotularem-na com o epíteto “divina”.
E Shakespeare? Não tenho cabedal suficiente para falar sobre Shakespeare. É óbvio que Bloom exagera quando diz que Shakespeare inventou o “humano”, mas, o bardo chega bem próximo disto. Quantos dramas, histórias, historietas, poesias, quanta densidade, quanta tristeza e alegria. Ninguém escreveu como ele. A primeira vez que li Hamlet (ainda não tinha lido Bloom) já achava um dos melhores escritos de todos os tempos. Comentar a influência do bardo é exercitar o óbvio. Nenhum filósofo falou tão profundamente e diretamente com as massas quanto o drama shakesperiano.
E a praga do politicamente correto que domina o mundo atual? Gostaria muito que Bloom tivesse energia suficente para melhor combate-la. Precisamos de pessoas como ele que combatam essa política intelectual da hipocrisia. O politicamente correto ultrapassou os limites a que se propunha (proteger as minorias) e chegou em um nível onde o debate inexiste. A ciência, o pensamento crítico e a sabedoria sofrem sério risco com esta praga. Uma vez, num “papo-cabeça” em uma mesa de bar (lembrei do bar ruim é lindo bicho) me disseram que eu era contra o PC porque não fazia parte de nenhuma minoria. Retruquei imediatamente. Lembrei que, além de ter nascido em um lar muito pobre, mãe adolescente e com família desfeita, era um cafuzo, filho de uma índia com um descendente de nordestino (cearense) e que fazia sim, parte de uma minoria. Isso, porém não me dava o direito de proibir os outros de pensarem suas próprias opiniões. Lembrei que o perigo existia quando estas opiniões se transformavam em uma prática de exclusão e violência. Mas eu não preciso do “politicamente correto” para me defender.
Por isso, concordo com Bloom. Estou ansioso por ler seu novo livro e concordo quando ele critica o ressentimento, o puritanismo e a hipocrisia reinantes, não só nas academias americanas, mas em todo o mundo e, principalmente, na imprensa de esquerda engajada em seus slogans fáceis e imbecilizantes. A cultura sofre. A arte agoniza. O consumismo desenfreado grassa e por aqui, na terra brasilis, a corrupção domina. Há noite no mundo. Precisamos da luz da sabedoria (como dizia Nietzsche), precisamos da própria sabedoria diluída nos livros. Precisamos do debate, precisamos de críticos como Bloom. Precisamos de debatedores contrários a Bloom para o conhecimento fluir. Nunca precisamos tanto de cultura e arte. Ainda há uma chance!